segunda-feira, 26 de julho de 2010

Carta sem título - por Ítalo Puccini

J.,

Estranho foi você ter perguntado pela minha mãe, assim, de repente. Se tanto demorei para lhe escrever foi porque perdi minha mãe. Esses sustos que nos pegam assim, pelo calcanhar, de costas, despreparados. Era uma tosse. Depois uma dor na nuca. Uma febre que não passava. E o sorriso sem graça agora é meu. Depois de dias de internação. De diagnósticos confusos. Quando me contaram o que era, não me restou nada a fazer se não ficar assim catatônica. É tradicional, não é? Pelo menos é o que dizem. Da gente ficar assim fora do ar ao receber a notícia, precisar de amparo, contatar os parentes. Aí vieram, os parentes. Lá de longe. Porque eu sou bem sozinha. Agora ainda mais. Éramos só eu e minha mãe. Há bastante tempo. Há vinte e dois anos, desde que meu pai foi embora. Dizem que até já casou e tem uma filha. Mas não apareceu no velório de minha mãe, não. Mora longe, acho.
Durante esses dias todos eu ficava vendo sua carta ali, na mesinha da sala. Entre três sofás e uma televisão preta e branca. Debaixo de uma bíblia. A bíblia que minha mãe lia sempre, todo dia. Ela assistia ao terço das seis da manhã e ao das seis da tarde. E sempre depois de assistir ao terço ela fazia o sinal da cruz e beijava a bíblia. Nunca reparei se era sempre a mesma página. Agora eu joguei fora aquela bíblia. Você acredita em Deus, J.? Mas eu ficava assim, respondendo a sua carta por pensamento, sabe? Pensando assim mesmo, ora, se ele, ou ela, afinal, me achou ao acaso, se de repente eu recebi uma correspondência de alguém que eu não faço ideia de quem seja, por que esse alguém não entenderia o que estou pensando agora e, ainda mais, por que esse alguém não receberia minha resposta, então, por pensamento, principalmente entendendo que no momento eu estaria impossibilitada de escrever? Sim, eu sou do tipo, J., que abre cartas de desconhecidos. Na verdade, a sua carta foi meu sopro de vida durante esses dois últimos meses. Eu não ligava mais para muita coisa, não. Mas eu pensava diariamente numa carta que eu tinha para responder. Só que na verdade eu gostaria de prolongar essa resposta quase que infinitamente, sabe? Por medo. Você me entende, J.? Por medo. Assim. Vai que eu respondo a você, e você não mais me escreve?
Não repara não na minha escrita, muito menos na minha letra. Essa escrita fragmentada, essa letra tremida. Esses recortes de mim. É que eu ainda não consigo dar conta de tudo, não. Tem uma pilha de contas atrasadas aqui na mesinha do abajur da sala, ao lado do braço de um dos sofás. Tem coisa há mais de mês aqui. Minha mãe ficou internada por trinta e nove dias. Eu contei. Eu vinha em casa, tomava um banho, descansava uma ou duas horinhas só na cama e voltava para o hospital. Eu sou professora. Pedi licença na prefeitura assim que o médico me disse que o caso da minha mãe era sério e que poderia ser irreversível. Engraçado são os médicos, não é, não? Eles sabem exatamente o que vai acontecer, ou o que já aconteceu, mas sabem como ninguém dar uma informação que não diz nem sim nem não. E aí deixam a gente assim, desnorteada, com cara de assustada, mas precisando mostrar uma segurança que não existe. Foi assim que cheguei na escola e falei que precisava de trinta dias de licença para cuidar da minha mãe. E quando me perguntaram o que ela tinha eu fiquei muda. Eu travei. E caí num choro. Na frente da diretora da escola. Que precisou chamar uma outra professora para me trazer um copo com água e açúcar para me acalmar e para que eu pudesse dizer aquilo que eu não sabia.
Foi então que eu percebi que numa carta eu posso verbalizar direitinho o que eu não sei. Acho que isso é o mais marcante numa troca de cartas, você não acha? Essa incongruência. Nós escrevemos para contar daquilo que é nosso, daquilo que nos acontece, daquilo que acreditamos que é nossa vida, mas na verdade a gente acaba descrevendo aquilo que não sabemos, aquilo que não é nosso mas nós pensamos que é. A gente se escancara para um outro, mas pouco percebe que a gente se escancara também é para nós mesmos numa escrita de carta, seja para quem conhecemos, seja para um desconhecido, como você é para mim, J.
E foi isso o que me levou a enfrentar esse meu medo de lhe escrever. O medo de que não me respondesse mais. E eu sei que ao escrever isto eu empurro a você uma certa pressão, uma necessidade-de-resposta-para-que-ela-não-se-suicide. Mas eu digo que não é para tanto assim. Eu sei o que é viver sozinha, sabia? Sei, sim. Sei muito bem. É algo inerente a mim. O estar só. Portanto, não se obrigue a me responder, não. Passo, a partir desse momento, a não esperar carta nenhuma em meu apartamento. Será melhor assim, creio.

P.S.: Mesmo assim, eu gostaria, sim, de saber da mãe que caiu nesse mundo para você, J. Só isso.

Com afeto,
Cê.
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produção proveniente do quinto encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Um novo mundo para acordar - Juliano R. Maciel

Ela acordou. O Gato Preto não estava mais lá, nem as outras histórias. Olhou ao redor e viu as mesmas paredes que por serem sempre tão diferentes acabavam sendo as mesmas – mas naquele dia eram azuis, não o tipo de azul contente por lambuzar um pincel e a cara de um pintor, mas um azul extraterreno que só se vê no neon dos cabarés e no brilho das estrelas. Sim, aquele azul com que Deus pinta a faixa de segurança para fora deste mundo.
Ela acordou de verdade. O Gato Preto estava na cabeceira, bem como as outras histórias e Antônio e Cleópatra. Mais livros estavam a um canto do quarto entapetado, livros que formavam uma pilha imensa, bagunçada, pareciam escombros empilhados contra o encontro de duas paredes – e as paredes agora eram brancas. Seu lençol branco sem mancha alguma voou para longe, e ela levantou. Colocou os pés no chão, mas ao invés do tapete vermelho bordado de dourado havia pedra, preta, fria, concreta. Aquelas pedras pontudas perfuravam pés alvos. Sentia dor. Tinha que levantar, agora tinha.
Mas acordou de novo. Abriu os olhos muito lentamente, embora a ânsia de acordar fosse maior e o medo maior ainda. Olhou ao redor. No teto, entre a mancha de infiltração e uma teia de aranha envelhecida, quase dourada de tão antiga, via um buraquinho preto de onde era possível enxergar um pedaço a mais da Via Láctea. Puxou o lençol amarelo até a altura do nariz, deixando apenas os olhos – um azul e outro verde – e a testa à mostra. Desviou o olhar para a parede do lado de sua cama e viu que ela não era de pedra, mas um imenso coral róseo. Onde ela estava agora? Olhou para o chão antes de sair da cama, o tapete azulado como o mar dos náufragos estava lá, encharcado. Pisou-o, sentindo o frio invadindo as solas dos pés descalços à medida que estes expulsavam a água salgada do tapete.
Pé ante pé, foi andando pelo quarto ensopado. Gotas pingavam do teto, a infiltração escorria pelas paredes – brancas – e empoçavam. Os livros ainda estavam lá, empilhados, um monte de páginas e letras e gravuras e mofo prestes a desmoronar sobre ela. Puxou uma brochura amarelada, inchada pela umidade. O Apanhador no Campo de Centeio.
Fechou os olhos para acordar novamente. Acordou. Sua cama estava quente. Empurrou o colchão com um dos cotovelos enquanto girou o corpo para endireitar-se na cama. Ainda era o mesmo dia, ainda era o mesmo minuto do qual se lembrava na última vez. O Gato Preto não estava na escrivaninha, Antônio e Cleópatra também não. Nem as paredes, nem o chão, nem o teto – só a cama e a escrivaninha. Estava voando, muito alto, nuvens amareladas pelo sol poente abaixo, a mancha azulada do fim do céu acima, o tom carmesim conjurado sobre o horizonte. Então viu que Casamento do Céu e do Inferno estava passando ali perto, um único passo e podia alcançá-lo. Mas tinha medo de cair. Mas tinha mais medo ainda de acordar de novo. Deu um passo para fora da cama, e quando tirou a outra perna de baixo do lençol vermelho despencou das alturas – se é que de lá pode-se despencar alguma coisa – e começou a cair – se é que não estivera sempre caindo.
Caiu durante semanas inteiras e não parecia sair do lugar. Não via mais a cama, nem a escrivaninha, nem o Casamento do Céu e do Inferno. Estava sozinha, cercada pelo ar, nuvens imensas ao longe, ao seu redor. Preferia viver assim a ter que acordar uma vez mais. O vento empurrava-a para cima, a gravidade a puxava para baixo. Não via limite algum, nenhum, absolutamente nenhum. As nuvens barravam até a visão da terra, que devia estar muito mais abaixo, e nuvens não são um limite difícil de se cruzar. Contanto que não parasse nelas, ficaria livre. Para sempre. Bastava não acordar mais.
Acordou. Seu quarto era preto, escuro. A única luz vinha de uma rachadura no teto por onde entrava um facho decadente de luz solar. Dormia em uma catacumba decrépita, mas não estava sozinha – no primeiro andar de seu beliche uma morta repousava sua podridão, os vermes comiam em silêncio. Olhou ao redor e no chão de azulejos pretos via ratos paupérrimos esmolando um naco de carne. As camas dos outros mortos estavam arrumadas, os lençóis tão roxos quanto o dela, mas eles não se moviam, não faziam nada. Só se deixavam consumir pelos mortívoros glutões.
“Os ratos estão aqui, comigo neste jazigo.” Disse para si mesma.
“Ela falou alguma coisa, vamos chamar o doutor.”
Mas acordou. A enfermeira fechou a porta. Abriu o único olho bom que restava e olhou ao redor. O quarto era branco, as paredes eram brancas, a cama e o lençol eram brancos, o rastro deixado pelas enfermeiras era branco, o chão era branco, tudo era muito branco. Branco demais. Branco como a morte na face dos mortos, branco como um osso limpo de carne, branco como plumas arrancadas de um pombo morto. Um branco sem paz, um branco desvirtuado de tão limpo.
Fechou os olhos. Ali, na alcova das pálpebras enegrecidas pela ausência da luz, encontrou um lar. E o melhor – não dormia. Estava em um lugar diferente – sem paredes, sem chão, sem teto; mas acordada. Desperta. Lúcida? A escuridão dos olhos fechados a enleou e não a deixou mais sair. Estava bem, estava acordada. Quem diria que não no mundo dos sonhos, mas no dos olhos fechados estaria bem? Ouviu passos no corredor da ala de oncologia, vinham vê-la, talvez sedá-la. Não queria dormir. Não de novo. Não queria acordar novamente, não de novo.
Na escuridão de seu novo mundo, não via nada, não sentia nada, não pensava nada, não dormia. Estava acordada. Estava bem.
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produção proveniente do quinto encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Vendem-se lembranças - por Ana Paula Kinas Tavares

A todos que possuem suas antigas casas em sonhos.
(Inverno, 2010)

Abro meus olhos, tudo parece saído de uma foto em sépia. O armário carvalho de três portas, um dia fora robusto, hoje tão velho já não fecha, tem um pôster de quando eu era menina com uma banda da qual não lembro nem o nome. Cinco garotos, que devem estar enrugados atrás de escrivaninhas de escritórios, sorriem numa montagem preta e branca colada com figurinhas de nossa infância. A tinta amarelada nas paredes começa a descascar, a cortina de renda encardida com um forro de tecido grosso e marrom veda qualquer luz. Eu deixei a porta entreaberta caso alguém possa me acordar. Mas, já não há ninguém, o silêncio escuro é meu único companheiro. Além do corredor, uma luz vermelha que entra pelos vidros trabalhados da janela do banheiro. Um vizinho, um maldito vizinho também com insônia. Se isso é hora de estar acordado? “Não deve ser boa gente”, diria minha mãe. Então não sou uma boa filha? Não devo ser, as outras crianças já cresceram e partiram, educam seus próprios filhos, constroem seus próprios lares. Tenho vontade de levantar, ir ao banheiro, talvez urinar. Mas, o piso ocre é frio e minhas pernas tremem. Melhor permanecer deitada, não devia ter acordado, ainda é madrugada e nem os pássaros ousam cantar.
Desisto, o sono não vai voltar. Não conheço canções de ninar, não tenho criado-mudo com abajur, nem livro ao alcance... Sempre achei chato contar carneiros. Minha perna direita escorrega para fora da cama, o pé se firma no chão gelado, um arrepio sobe até o pescoço e sofro calada. Afasto o cobertor florido do meu corpo, penso que devia estar há anos criando mofo neste armário, quem sabe foi do enxoval de minha mãe. Sento na beirada da cama e ouço aquele som característico dos móveis da minha casa: um ranger de madeira. Os dois pés pequenos e brancos no chão e um grande receio de me levantar. Não há o que temer, eu cresci por esses cômodos, não há nada que não conheça. O pó que cobre o chão não me fará mais mal em contato com a minha pele do que no ar que respiro. Levanto-me e ando até a grande porta escura entreaberta.
Seguro, de olhos fechados, o trinco e recordo o dourado envelhecido, sempre admirei esses trincos, ainda que antigos têm um presença imperial. Por um momento tenho onze anos, temo acordar meus pais e sinto a presença dos meus irmãos. A luz do corredor está acesa, corro até o banheiro já sentindo um líquido quente escorrer pela minha perna esquerda. Abaixo minha calcinha rosa de pequenas florzinhas lilases, ergo minha camisola branca de renda no seio e, quando, finalmente, sento na privada descubro que algum dos meninos se esqueceu de abaixar a tampa, está ainda mais gelado. O silêncio da noite é só recortado pelo encontro dos líquidos abaixo de mim, fico envergonhada. Pego três pedaços de papel higiênico, quase esqueço o ocorrido enquanto observo o cãozinho do desenho, em seguida volto a mim e seco o líquido em minha perna. Minhas bochechas estão quentes e vermelhas, como costumam ficar quando me vejo fazendo algo errado e temo ser pega. Corto mais um exagero de quadrados brancos e macios. Passo-os suavemente em minhas vergonhas, dobro-os perfeitamente e os jogo no cesto de plástico verde. A luz está apagada mais sei certinho onde está a pia, abro a torneira de prata o mínimo possível evitando mais barulho, lavo minhas mãos com o grande sabonete laranja de cheiro ruim.
Fecho a porta do banheiro - a luz do vizinho passou a me incomodar. Que cara sem noção, já passa das 3h, é quinta-feira! O que ele está fazendo? Senhor! Minha mãe não vive mais aqui, não há mais ninguém, por que ainda penso como eles? Volto ao meu quarto, agora só meu, tateando as paredes, na completa escuridão. Subo na cama, eu a lembrava mais alta, afundando menos, sem esse cheiro de coisa velha, mas com esse mesmo rangido do estrado. Tudo é tão velho por aqui. Como trazer um homem a um lugar que lembra mãe? Avó, diria algum dos meninos. Teria razão, por isso tento dormir sozinha e não consigo, além do vizinho com aquela infernal luz e a manhã nascendo com seus pássaros cantores. Eu devia dormir, amanhã tenho mais um encontro que não levará a lugar nenhum. Homens querem mulheres, não mais meninas em corpos envelhecidos.
Sinto no travesseiro o cheiro másculo de uma outra noite, bendito álcool: fada madrinha de mulheres como eu. Ele era tão bonito, cavalheiro, estava tão alcoolizado, excitado, foi tão fácil, prazeroso e, acabou tão rápido. Há pouco peguei no sono inebriada por essa essência, uma mistura de desodorante, suor, sabonete, lubrificante, hidratante e gozo. Deve estar por todo lençol xadrez, dos fortes traços vermelhos até os finos tons de azul, desde meus primeiros contatos sexuais. Há quanto tempo não é trocada esta roupa de cama? Instintivamente levo meu dedo indicador, com a unha tão bem feita em vermelho rubi, ao nariz. Sim, lá encontro o cheiro do desejo. Se não tenho ninguém, se não consigo dormir, é o melhor que tenho a fazer.
Acendo a luz pelo interruptor cinza e amarelo - bem convencional -, que fica acima da minha cabeça, sempre reclamei. Sua praticidade me causava incômodos durante a noite, vez ou outra uma voz de criança medrosa me acordava para acender a luz, uma vez acordada não me custava acender. A imensa luz amarela, rodeada por um vidro fosco de lustre que não é limpo há anos, invade o quarto. Vejo finalmente o outro móvel, além do roupeiro e dos beliches, no pequeno quarto quatro por quatro: meu querido baú. Lembro como se fosse hoje, meu padrinho tirando da caminhonete meu presente de Natal, grande e pesado, tão invejado pelos demais. Abri eufórica depois da ceia e descobri pequenos girassóis pintados à mão, fui me decepcionando, aos seis anos preferia uma boneca. Os adultos conversavam sobre o quanto era valioso aquele baú, “uma madeira resistente”, “acabamento impecável que já não se vê”. Pra mim era só o maior presente desagradável que podia ter recebido. Os meninos riram de mim por dias, acabei me acostumando, perdi um espaço no quarto, ganhei tempo para brincar. Minha mãe mostrava a todos que nos visitavam, “um maravilhoso baú”, “veio da Itália”, ainda hoje tenho cá minhas dúvidas sobre sua origem, é certo que é resistente, madeira boa mesmo, nem o tempo, nem os cupins conseguiram destruí-lo. É uma peça bonita para um quarto antigo, mas nunca deixará de ser um presente enfadonho para uma criança.
Fecho meus olhos, revivo as utilidades do baú e de meu quarto. Guardar bonecas, brincar, segredar meus poemas, livrar-me dos meninos, proteger minhas roupas íntimas, abrigar meus sonhos, esconder meus diários, ser cenário de pecados. Se nessa casa tive um confidente foi este baú, sem meu quarto o baú seria inútil, mas o quarto sempre foi de todos, só o baú para ser inviolável. Já não sei onde está a chave e nem a preciso, todos se foram, e me pergunto o que ainda faço aqui. Nunca gostei dessa casa, preferia que fosse mais perto da escola, que tivesse um jardim maior, pegasse mais sol, não fosse tão antiga. Eu gostava dos trincos, ah, dos trincos eu gostava. A chave presa à porta me protegia, o dourado me encantava, o redondo sempre me fascinou. A porta da frente não tem um trinco assim, talvez seja isso, nunca tive coragem de seguir, definitivamente, meu caminho.
Decido por acordar. Primeiro a perna direita, depois a esquerda, uma preguiça para abandonar o cobertor florido. Meus pés se firmando no ocre frio, alguns poucos passos e abro as cortinas rendadas e encardidas. Mais um dia que nasce, um dia sem sol, sem neblina, e tingido por aquele cinza de apatia. Sempre admirei dias assim, são como telas em branco em que podemos usar de todas nossas emoções para transformá-las no que quisermos. Se brincássemos lá fora, cantássemos e corrêssemos, o dia ia ficando alaranjado. Se dormíssemos mais que a cama, se ficássemos quietinhos e assistíssemos à TV, o dia ia escurecendo e a noite viria depressa. Mesmo que eu quisesse e a noite viesse, os meninos faziam questão de iluminar a casa. Sem eles aqui é tudo tão frio, tão quieto, tão sépia.
Vejo na grande janela de vidro e madeira umas poucas marcas de cola, faz tanto tempo, mas continuam ali. Como se provassem o que minha mãe dizia: “vocês são uns relaxados, não ajudam em nada”. Devia ser um adesivo da copa, talvez uma figurinha dizendo que amávamos nossa cidade, tínhamos vários e sempre trocávamos, ora era a cola que se estragava, ora a espera pelo penta. Eu queria ver esse quarto cuidado outra vez, acompanhar as flores crescendo no jardim, ouvir o riso de casa cheia, sentir o aroma de comida caseira. Todos eles partiram e me deixaram sozinha. Os meninos, os homens, os sonhos. Eu dizia que seria professora, queria três filhas e nem se quer me casei. Eu queria uma casa com jardim, conhecer Minas Gerais, ter afilhados, mas nem admiro mais as árvores. Onde tudo se perdeu? Quando? Eu era uma menina que corria por aqui, ainda ontem.
Choro. Choro uma dor barulhenta, guardada por anos, inexplicável por tantas razões. Choro a morte dos meus pais, a distância dos meus irmãos, o não conhecer dos meus sobrinhos, a falta de um amor, a desistência de casar, a impaciência com as crianças. Choro por ser uma contadora frustrada, por só ter ido até São Paulo, por escolher solidão a algumas crianças correndo, por viver trancada em apartamento, por não mais freqüentar a Igreja nem manter contato com minhas amigas de infância. Sem que eu quisesse me tornei a tia solteirona de que minha mãe me alertava, eu seguia tudo que ela dizia até que algo se rompeu e eu nem percebi. Gostaria de saber onde me perdi. Eu achei por muito tempo que era uma fórmula de sucesso óbvio, acreditei que teria uma família tão alegre quanto a minha.
Colo a branca placa escrita em vermelho “vende-se” logo acima do telefone da imobiliária. Achei que meus pais viveriam aqui para sempre, juro que achei. Imaginava uma feliz ceia de Natal com meus três irmãos, com meus sobrinhos, com minhas cunhadas, meu marido, meus filhos e meus pais. A casa toda enfeitada de verde e dourado como quando eu era criança. Meu pai se vestindo de Papai Noel, despertando o brilho dos olhinhos infantis. Minha mãe super preocupada com o peru, com a salada, pedindo ajuda para tirar a mesa senão com a demora da abertura dos presentes “a comida se estraga”. Meus irmãos comendo e bebendo muito, contando de suas vidas, rindo uns dos outros. As crianças brincando, descobrindo seus presentes, rendendo-se aos pedidos da minha mãe para que cantem as músicas de Natal ao Menino Jesus. E é claro, todos sorrindo se aglomerando no sofá, “para podermos recordar”, para mais uma fotografia em sépia.
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produção proveniente do quinto encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

uma carta para o ítalo

aqui

quarta-feira, 30 de junho de 2010

quinto círculo: descrições de espaços e atmosferas

Na noite de hoje encontramo-nos para o quinto encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita, especialmente hoje na sala do Laboratório de Línguas.

A proposta foi a de, durante uma hora, continuarmos o ritmo de leitura de contos que lidam com a descrição minuciosamente. E, se nos encontros anteriores lemos e conversamos sobre alguns contos de Machado de Assis (e a descrição de personagens - psicológica, principalmente - possíveis de serem lidas) e de Lucia Bettencourt (e a descrição cuidadosa de algumas ações e atmosferas criadas em seus contos), no encontro de hoje nos concentramos na leitura de três contos do livro "Morangos Mofados", de Caio Fernando Abreu (contos "Diálogo", "Pela passagem de uma grande dor" e "Luz e sombra"), ficando um conto ("O dia que Júpiter encontro Saturno (Nova História Colorida)") para ser lido em casa pelos participantes.

A primeira observação registrada, antes mesmo de lermos os contos, foi sobre a formação do livro "Morangos Mofados". Sua estruturação. A divisão em três capítulos (sendo o último com somente um conto, que dá título ao livro), com os dois capítulos primeiros sendo "Mofo" e "Os morangos". E novamente tivemos um olhar para as dedicatórias, algo já observado nos livros da Lucia Bettencourt, e que se torna marcante também neste livro do Caio F. Abreu, pela quantidade de dedicatórias, seja nas divisões de capítulos, seja em cada conto.

A escrita do autor, neste livro, retrata a década de 70 e todas as transformações sociais, políticas, econômicas e culturais vivenciadas durante aquela época. Há uma atmosfera de dor e de solidão nestes contos. Uma busca pelo ser humano, pelo interior de ser um humano. E a descrição de Caio Fernando Abreu é tão rica nestes contos que, durante a leitura dos mesmos, nós, do grupo, sentimos de maneira muito forte essa atmosfera descrita, de solidão, de um desespero silencioso e longo, angustiante. Inclusive as leituras dos contos, principalmente no começo do encontro, naquele primeiro contato com o texto, deram-se bastante cadenciadas, quase que arrastadas, como "pedia" o texto, o conto. Um exemplo de como cada texto "impõe" uma forma de leitura ao sujeito-leitor (basta pensarmos os contos dialogados do livro "A cabeça", do Luiz Vilela, e estes contos do Caio Fernando Abreu).

A partir destas leituras - "relacionando" as descrições presentes em Machado de Assis, Lucia Bettencourt e Caio Fernando Abreu - a proposta de escrita para o grupo - aproveitando o período de pouco mais de um mês sem encontros - é a de contos que primem pela descrição cuidadosa, seja de personagens, seja de ações ou de espaços e atmosferas, densas ou não, ou de todas essas características numa mesma narrativa.

É hora de rabiscar pra valer!


Ítalo Puccini, pesquisador mediador.

domingo, 20 de junho de 2010

quarto círculo: a descrição nas narrativas

Na manhã de sábado, 19, encontramo-nos para mais um encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita, na sala do Lappe, das 9h às 11h da manhã.

Conforme havíamos combinado no encontro anterior, trouxemos novamente o material com alguns contos do livro “50 contos de Machado de Assis”, organizado por John Gledson. E foi com um conto machadiano que iniciamos a leitura deste quarto encontro do grupo.

Lemos “A cartomante”. A história de Vilela e Rita e Camilo. Ou de Camilo, Rita e Vilela. Um conto descrito de maneira riquíssima. Personagens escancarados ao sujeito-leitor. Um triângulo amoroso. Em cheque, a questão da crença. Seja em uma cartomante, seja em um amigo ou mesmo na própria esposa. A cartomante descrita por Machado é uma personagem sinistra, que apesar de não ter nem o seu nome revelado, destaca-se como um personagem que ludibria os personagens principais. Rita crê que a cartomante pode resolver todos os seus problemas e angústias. Camilo, já no fim do conto, quando está prestes a ter desmascarado seu caso com Rita, no ápice de seu desespero, recorre a esta mesma cartomante, que por sua vez o ilude da mesma forma como ilude todos os seus clientes, inclusive Rita.


Então, passamos a uma outra leitura de uma outra "A cartomante". Um outro conto, de mesmo nome, do livro "A secretária de borges", da escritora Lúcia Bettencourt. Um conto riquíssimo na descrição não só dos personagens, mas das ações e dos espaços situados na história (talvez mais destes do que dos personagens em si). O leitor fica se perguntando quem é o "ele" da história. O "ele" que procura por uma cartomante. E o leitor percebe, tal qual em Machado, a obviedade dos dizeres da cartomante. E percebe mais. Percebe uma diferença de final para os dois textos. Se em um temos um final brusco e bem definido, em outro nos deparamos com um final que nos leva à teoria de Piglia, das diversas possibilidades de finais de narrativas, que ficam a critério do leitor definir.

E, para sentir mais de um conto riquíssimo em descrições, partimos para a leitura do conto "O inseto", presente no mesmo livro. Um conto envolvente. Uma possibilidade de releitura para "A metamorfose", de Kafka, por exemplo. Se neste temos um humano que acorda como barata, naquele deparamo-nos com uma barata que se humaniza. E, como leitores, somos envolvidos por esse humanizar-se. Pela presença de um inseto. Depois, de um homem. E não conseguimos nos separar da personagem feminina que encara de frente esse inseto-humano. Fica-nos o olhar de leitor-curioso, do que ela fará, do como ela agirá, ou do porquê deste ou daquele jeito ela agiu. Somos envolvidos por uma narrativa cuidadosamente descrita e construída num tom de mistério. E fomos, então, levados a leituras outras, como a de "A paixão segundo G.H.", da Clarice Lispector, aquele encarar a barata, matá-la e a partir daí tudo se desenrolar. Leituras que se cruzam em um grupo.

Por fim, os participantes ainda levaram para casa o conto "Segredos da carne", do mesmo livro, e "A predadora", do livro "Linha de sombra", da mesma autora. Sem contar o desafio de produzirem, a partir de agora, um conto que prime pela riqueza de detalhes, pela descrição cuidadosa, seja de personagens, de espaços, de ações, e pelo tom misterioso conduzindo a história.


Ítalo Puccini, pesquisador mediador.

terça-feira, 8 de junho de 2010

terceiro círculo: um clássico contemporâneo

Hoje nos reunimos para o terceiro encontro do Círculo de Leitura e Produção escrita. Um encontro rápido, de somente uma hora. De muita leitura.

Foi proposta a leitura de cinco contos do Machado de Assis. "Um apólogo", "O espelho", "Fulano", "Conto de escola" e "A cartomante". Todos contos presentes no livro cuja imagem está acima. Uma coletânea dos 50 melhores contos do Machado de Assis, organizada por John Gledson, americano estudioso da obra machadiana.

Pelo tempo disponível, e pelas conversas oriundas das leituras, conseguimos ler somente os três primeiros contos. Os outros dois ficaram para ser lidos pelos participantes até o próximo encontro. Inclusive, deixamos combinado que o quarto encontro iniciaremos com a leitura do conto "A cartomante", para retomarmos as leituras feitas neste encontro.

Algumas observações, ainda rasas, não havendo mesmo necessidade de serem mais aprofundadas neste momento, e dentro do tempo que tínhamos à disposição, deram conta daquela que para nós, participantes, é a característica principal da escrita de Machado de Assis: sua contemporaneidade, assim chamamos.

O texto do Machado é atemporal. Por mais que muitos textos deste autor situem numa linha de tempo-espaço o país e o mundo, as possibilidades de leitura dos mesmos tornam-nos atemporais, no sentido de que, se lidos à época em que foram escritos, ou lidos hoje em dia, e até nos dias que virão, continuarão sendo muito bem contextualizados no momento presente. Isto devido, acreditamos, à construção de personagens e de tramas muito bem urdidas pelo autor.

Nos textos selecionados, inclusive, a densidade dos personagens, o quanto eles são "escancarados" ao leitor - ao mesmo tempo que o texto não os entrega em suas características, sendo preciso que o leitor as descubre numa leitura bastante atenta e não linear - se fez notória neste encontro. Salientando também os sentimentos humanos mais humanos que tais personagens afloram, como vaidade, inveja, ciúme. Sentimentos tão nossos, enquanto humanos que somos, mas tão difícies de serem lidados, seja em nós mesmos, seja nos outros, próximos ou não a nós. Daí, portanto, tal contemporaneidade deste texto clássico. Daí, portanto, tal possibilidade de leitura sempre no presente. E muito mais ainda por pensar para o encontro próximo.

Ítalo Puccini, pesquisador mediador.

domingo, 30 de maio de 2010

Arengas Matinais - por Juliano R. Maciel

“Vamo acordando vagabundo.” Tinha alguém ali naquela cadeira ao lado da cama, onde sempre ficava um terno surrado.
“Quem taí?” Uma luzinha vermelha cor de brasa acendeu e logo apagou. Um cigarro.
“Não é óbvio?” Quem fumava na cadeira era um esqueleto. O cara na cama sentiu-se todo mole, uma pasta de carne e tendões.
“Que porra é essa?!”
“Pois é, que porra é essa de ficar dormindo até as nove e quinze?” o esqueleto do cara levantou e abriu a janela.
“Como você saiu?”
“É fácil.” O esqueleto do cara deu mais uma tragada, a fumaça saía pelos buracos da caveira.
“Poxa, meus dentes tão horríveis.”
“E sua coluna também.” Dizendo isso o esqueleto do cara apontou umas duas vértebras tortas.
O cara ficou sem falar.
“Acho que vou dar uma volta cara.”
“Aonde você vai?”
“Pra que ficar aflito? Sem mim você pode ficar bem quietinho aí.”
“Então porque me acordou?”
O cara não teve resposta. O esqueleto do cara foi até o armário e abriu.
“Vai se vestir?”
“Não pode?”
“Mas vai cobrir o quê?”
“Serve isso?” e abriu os braços, mostrando para o cara todos os ossos.
“Ok, mas cobrir o quê?”
“Sei lá” o esqueleto do cara olhou com órbitas vazias o buraco da bacia, a pélvis descarnada.
“Você sente frio?”
“Não.”
“Então, vai cobrir pra quê?”
“Sabe cara, se você fosse mulher e eu fosse o esqueleto de uma mulher, eu até me cobria. Esse buraco aqui da pélvis, da bacia sabe... sugere coisas pra quem tem mais osso do que cérebro.”
“Pois é, mas a gente não cobre por que sugere. A gente cobre... sei lá, por vergonha, pra proteger, sei lá.”
“Só se for proteger dos olhos dos outros.”
“Acha que vão te olhar se você sair na rua?”
“Acho. E vão logo descer a vista pros ossos entre os fêmures. Não só pra saber se sou de homem ou de mulher, é porque gente gosta de bizarrice mesmo.”
“Homem ou mulher? Esqueleto agora é homem ou mulher?” O esqueleto do cara foi até a cama e arrancou um fio de cabelo do cara.
“Isso aqui é homem ou mulher?” mas o cara não entendeu aquele ponto de vista da lógica esquelética.
“Tá bom, ok, ok, veste o que quiser.”
“Só ia colocar um casaco.”
“Você disse que não sente frio...”
“Claro. A gente se cobre porque é bonito se cobrir. Ninguém vai ligar pra mim na rua, mas desde que eu esteja com um casaco. Pode ver: que boa coisa, estratégia pura. Usar a roupa pra não se incomodar. Pra desaparecer aparecendo.”
“Incomodar?”
“É, com os outros. Quem recebe toda a carga é a roupa, o corpo dentro fica isolado. Reclamam da roupa, não do corpo, mesmo que seja um corpo só de ossos. Agora, sem roupa, não dá... chama atenção demais. Sabe, o homem é o esqueleto da roupa.”
“Então tem muita gente com fratura exposta por aí.”
“É, pois é. Quer que eu traga algo da rua?”
“Hmm. Sei lá, compra pão.”
“Ok.”
“Que horas você volta? Eu tenho que digitar uns relatórios.”
“A gente se vê.”
“Ô, peraí! Vê se volta heim! Preciso de você!”
“Será mesmo?” o esqueleto do cara colocou um casaco. No bolso, pôs um isqueiro, uma carteira de cigarros e um pouco de dinheiro miúdo. O cara ia dizer que era outro bom motivo pra se vestir, esse de carregar as coisas, mas não estava pra papo.
“Volta heim.” Limitou-se a dizer, mole como estava. Podia sentir o coração empurrando os pulmões a cada batida.
O esqueleto do cara saiu e encostou a porta do quarto. O cara ouviu os pés batendo que nem chocalho pelo corredor, descendo as escadas e saindo para a rua.
O cara olhou no relógio. Estava tarde.
“Filho da mãe, não trancou a porta.” Fechou os olhos.
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produção proveniente do segundo encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Desflorescer - por Adriana Bernardes

“E por que eu pensaria nisso?”
“Sei lá... nunca passou pela sua cabeça essa possibilidade?”
“Na verdade... não”
“Você tem pensado muito nisso?”
“Muito... nos últimos dias.”
“Você realmente teria coragem?”
“Sim.”
“Não acha mais fácil tentar encontrar uma solução?”
“E porque eu iria querer permanecer aqui como estou?”
“Por muitas razões. Não há momentos em que você se sente realizada em situações bem banais?”
“Hum... não. Bem... talvez. Já vi algumas árvores que me deixaram extasiada com sua beleza e grandiosidade... adoro as árvores! Principalmente as que florescem em determinadas épocas do ano, como os ipês, as flamboaiãs, são árvores magníficas!”
“Então, essas pequenas coisas não fazem você sentir o desejo de permanecer? Não te trazem memórias?”
“Talvez... quando eu era mais jovem minha mãe me levava ao parque da cidade e eu me abraçava às arvores e ficava ali, durante horas, conversando com elas. Elas não me diziam muita coisa, mas eu ficava ali tentando ouvir alguma resposta. O silêncio de hoje me incomoda mais que o silêncio das árvores”.
“O que a incomoda?”
“Não ter pedido algumas desculpas; não ter abraçado algumas outras tantas árvores; não ter estado perto de algumas pessoas; ter adiado certas escolhas...”
“Talvez você devesse permanecer para concluir essas tarefas.”
“Não há mais tempo.”
“Por quê?”
“Porque cuidei de estar ausente há alguns minutos atrás.”
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produção proveniente do segundo encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Traição - por Jessica Bianchi Leite

- Me diz.
- Já disse: não fiz nada!
- Confessa. Todo mundo já sabe.
- Todo mundo, não.
- Eu te vi com ela.
- Então por que pergunta?
- Ah, então você confessa?
- Se você disse que viu...
- É, eu vi.
- O que você viu?
- O que você fez.
- Deixa pra lá.
- Não desta vez. Já deixei pra lá há muito tempo.
- Você sabe que não vai ganhar nada com isso, a gente sempre volta.
- Mas não te quero mais.
- E se for mentira?
- E se for verdade?
- Você só acredita no que os outros falam.
- Isso significa que a palavra dos outros tem mais valor que a sua.
- É por isso que faço isso. Você não me dá valor.
- Então você fez?
- Fiz.
- Cachorro!
- Você me obrigou.
- Ainda me culpa por sua infidelidade!
- Você já não me vê como antes.
- Você mudou muito.
- Por você.
- Não venha com chantagem.
- Essa foi a última vez.
- Você sempre diz isso.
- Dessa vez é sério.
- Cansei de tentar.
- Me dê mais uma chance.
- …
Silêncio. Anoitece. Amanhece.
- Amor, estou indo trabalhar. Até depois.
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produção proveniente do segundo encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

Rivalidade - por Jessica Bianchi Leite

“Como vai, amor?”
“Como posso ir? Você não viu o que aconteceu?”
“Vi. Mas queria que você esquecesse.”
“Esquecer?”
“É.”
“Isso não se esquece.”
“Se você fizesse o mínimo de esforço...”
“Para, Anita. Quero dormir. Estou cansado desta vida.”
“Relaxa. Esqueceu que eu também trabalho?”
“Mas isso não faz sentido. Eu sou pós-graduado, você não tem o mínimo de conhecimento, como consegue ganhar mais que eu?”
“Porque você, no momento, não ganha nada.”
“É por isso que estamos assim. Nossa vida social não combina. Por isso a gente sempre termina”
“Não dá certo porque você é um machista.”
“Machista? Quem é que dá em cima do chefe para ganhar aumento?”
“Eu não, quem disse isso?”
“Toda a vizinhança.”
“Ah, tá!”
“Sim, e não quero mais ficar submisso a minha mulher. Vamos terminar logo com isso.”
“Tá bem. Você sai. O apartamento é meu, eu que pago as contas...”
“Assim não, preciso de tempo.”
“Que tempo? Já teve tempo demais. Até perder o emprego.”
“Tá, fico por uma semana.”
“Pode ficar.”
“Vou tomar banho.”
“No sofá.”
“Tenho meu quarto.”
“Faça o que quiser. Vou dormir.”
Ele vai até a cozinha, pega uma cerveja e volta para o quarto de Anita.
“Esqueceu?”
“Esqueci.”
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produção proveniente do segundo encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Ônibus - por Juliana do Amaral

Tarde de sábado. A mãe sentada no ponto de ônibus, impaciente, o filho do lado, balançando as pernas no ar. Um homem de meia idade aproxima-se e senta ao lado. Puxa um cigarro.
- Ah, mas era só o que me faltava...
- Que foi, dona? Tá falando comigo?
- Você não viu que tem criança aqui, não? Chega mais pra lá, filho, chega mais pra lá que eu não quero você respirando essa fumaça fedorenta.
- Ah, dá licença! Vai encher o saco de outro, vai!
- Olha o respeito, seu vagabundo! Não sabe que isso faz mal à saúde?
- A saúde é minha, o problema é meu! Vê se me deixa!
- Eu só acho que o senhor devia respeitar a criança! A coitada não tem culpa – responde, num tom de despeito.
O menino olha de viés. Depois torna a abaixar a cabeça, olhos fixos nos pés que voam alternadamente.
- Pó, dona, já não basta os meus problemas, ainda tenho que ficar ouvindo sermão? Dá licença!
- Hum. Problema todo mundo tem. Eu também tô assim, ó, de problema. Cigarro não resolve não. Vai por mim. Eu sei.
O homem olha ironicamente para a mulher ao seu lado. Só agora descobriu com quem estava falando.
- Então a senhora já...
- Parei quando – traça um semicírculo sob o ventre, fazendo sinal com a cabeça em direção ao filho.
- Pode não resolver. Mas alivia.
- É.
Após breve silêncio, ele oferece, num sussurro:
- Um traguinho?
- Você tá louco?
- Eia! Não quis ofender, não.
- Só quero se for um inteiro.
Retira do bolso a carteira amassada e passa um cigarro para a mulher ao seu lado.
- Fogo?
- Aham... Obrigada.
Dá uma tragada profunda e lenta. O filho observa, sem entender.
- Fica longe, filhinho. Essa fumaça faz mal.
Levanta-se, dissipando a nuvem com a mão. Olha para a rua.
- Essa droga desse ônibus... Sempre atrasa.
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produção proveniente do segundo encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

Viu? - por Ítalo Puccini

“Mas como você não viu?”
“Não vi, oras, não vi”.
“Mas como?”
“Não vi, caramba! Ponto. Não vi”.
“...”
“Passou uma menina aqui do meu lado. Toda gostozinha, toda cheirozinha, toda...”
“Tá, cacete! Já entendi”.
“Mas você tinha de ver a menina!”
“Cala a boca! Eu ainda não acredito que você não viu!”
“Não vi, desculpa”.
“Que desculpa, o que?! Eu devia era te...”
“Olha lá, olha lá”.
“Olha lá o quê?”
“Olha lá, é ela, a menina gostozinha. Ai, meu jesus cristinho, me proteja”.
“Eu não acredito!”
“Ai, eu também não acredito. É perfeita demais ela, não?”
“Cala a boca, rapaz”.
“Ai, pra quê esse tapa?”
“Pra quê? Você merecia era mais, era levar uma surra mesmo! Você não sabe quem é ela, não, seu trouxa?”
“Eu vou lá”.
“Eu te perguntei se você não sabe quem é ela?!”
“Claro que não sei! Se soubesse, já tava andando de quatro por ela há muito tempo”.
“Meu deus do céu...”
“Eu vou lá falar com ela, pedir se ela não quer ajuda para carregar as sacolas, se ela mora longe, se não quer companhia até em casa...”
“Você nem sabe se ela tá indo pra casa, não viaja!”
“Por isso mesmo vou lá, pra perguntar se ela precisa de ajuda”.
“Quem vai precisar de ajuda aqui é você, porque eu vou te trucidar daqui a pouco!”
“Por isso é que eu vou já!”
“Ô, onde é que tu tá indo? Não! Espera!”
“...”
“Volta aqui! cuidado! Olha o caminh...”
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produção proveniente do segundo encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Trivialidade - por Verônica Camilotti

Então, levantando-se da mesa após o jantar e com aquela vontade de instigar, diz:
- Pois é, querida, eu nunca vi você ler coisa alguma.
- E daí? Responde ela.
-E daí? Daí que... Como é que você dá conta de conversar tanto se você não lê e não se interessa pelo que acontece no mundo?
- Ora, como não me interesso?
Sarcasticamente ele continua...
-Sabe, meu bem, eu sei que você não é analfabeta porque assina cheques, mas...
Desanimada, pensa que essa situação tornou-se típica após o jantar quando ele está com algum problema no trabalho. Interrompendo-o, ela pergunta:
-Por um acaso você, de novo, está querendo briga? Que coisa mais chata!
- Não, claro que não. – Mas insiste – O que você tanto conversa com as tuas amigas?
- Se conversamos é porque temos assunto... E não te interessa...
- É, imagino!
Armando-se do propósito de também irritá-lo, contesta:
- Você não sabe? Somos bem informadas. Assistimos à novela e acompanhamos o BBB.
-Ah, é sobre isso que vocês tanto falam?
- É, e daí?
-Daí... Daí, nada. Vou pro quarto assistir futebol. Traz uma cerveja pra mim?
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produção proveniente do segundo encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A pizza - por Clarissa Ritta Mileski

Sábado à noite, jogada na poltrona, ela reclama:
- Nada pra fazer, ô vidinha sem graça...
- Quer pedir uma pizza?
Pergunta ele atencioso, tentando consolar aquela carinha triste e desolada.
- Não, não é disto que estou falando – diz exausta, batendo as mãos nas coxas.
- Não?
- Não.
- Já sei, vamos comer fora?
-Mas você só pensa em programa de gordo?
- Eu só queria te ajudar. Ei, podemos pedir um X-salada, tirando o hambúrger, o resto é tudo saudável, que tal?
- Para. Não é isto que eu estou falando, Carlos – Diz ela levantando bruscamente da poltrona, fazendo gestos frenéticos – Eu quero algo emocionante, vibrante, entende? Uma aventura... Ah, Carlos, sei lá, você sabe do que estou falando...
-Não, não sei – diz ele, preocupado com sua ignorância.
Baixando a cabeça e voltando para a poltrona, ela se envergonha da rebeldia.
- Claro que sabe, esta rotina esmagadora...
- Não acho – diz ele, otimista e cheio de carinho – Sempre comemos algo diferente no fim de semana, se lembra da comida mexicana? Aquela foi de matar né?
- Dá pra parar de falar de comida?
- Foi mal, tava só ajudando...
De repente vem uma idéia, e ela volta a falar alucinadamente.
- Já sei, vai ter show na Notre hoje! É, isto...
- Ah, agora eu entendi. Se problema é com música, e não comida...
- Não, Carlos. Eu não tenho problema com a música. Eu quero sentir meu coração bater mais alto, adrenalina, sabe? Deixa pra lá, você não entende...
Já cansado de tanto tentar, ele se levanta e olha para a janela do apartamento.
- Claro que sei, meu amor. Quer maior adrenalina que isto? Agradar você num sábado às duas horas da madruga, é dose.
- Eu não pedi para você me agradar.
- E precisa pedir?
- Como se adiantasse alguma coisa...
-Tá bom, tá bom – diz ele, cansado – vamos na Notre, se arruma.
- Não fala assim comigo.
- Caramba, já concordei em ir, o que mais você quer?
- Quero sair, porra. Mas não assim..
- Assim como?
- Assim deste jeito, sei lá.
- Tá difícil. Se tu continuar empacando, eu vou pedir pizza.
- Eu preciso me arrumar, mas tô sem roupa. Não quero sair feia.
- Mas você é linda meu amor, eu te amo!
Ele a abraça carinhosamente, cheirando seus cabelos.
- Além do mais, preciso de maquiagem.
- Pra quê? Pra ficar velha mais rápido?
- Pra ficar parecida com a Pati. Uma vez você disse que transaria com ela, lembra? Porque ela tinha uma boca atraente, os olhos verdes...
- Para com isto amor, ela não é páreo pra você – preocupado – E aquilo era começo de namoro, eu falei porque você dizia que gostava de aventuras sabe, foi da boca pra fora...
Ela ergue a sobrancelha e lança um olhar desafiador.
- Eu anda gosto de aventuras, OK?
- Então tá! Vou pedir pra Pati trazer umas pizzas, pode ser calabresa?
- Carlos, não.
Balbuciou ela incrédula, enquanto Carlos procurava o celular no bolso da calça.
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produção proveniente do segundo encontro do Círculo de Leitura e de Produção Escrita.